Em uma madrugada qualquer sem ter o que fazer, resolvi bisbilhotar os álbuns mais remotos do meu orkut e achei o álbum do ballet. O coração ficou apertadiiiinho. Lotado de saudade, de histórias e de memórias. E de saudade.
Saudade de fazer coque todo dia e de reclamar que aquela quantidade enorme de grampos destruía o meu cabelo. Saudade de colocar aquela roupa feita pra gente extra-magra (eu nunca fui extra-magra, vale ressaltar), olhar no espelho e me sentir a mais gorda do mundo das gordas. Saudade de colocar umas camisetas velhas e umas calças rasgadas por cima da roupa do ballet pra tentar disfarçar o que estava fora do lugar (ou seja, tudo).
Saudade do cheio de chulé do vestiário. Saudade da bagunça dos camarins. Saudade da tortura que era colar os cílios pra dançar. SAUDADE DE DANÇAR. Saudade do cheiro do breu, do talco da ponteira, da meleca de base-nuget pra pintar as pontas. Saudade de furar o dedo costurando sapatilha. Saudade dos ensaios de sexta a noite que acabavam depois das 23h, do stress maluco em véspera de festival. Saudade de viajar pra festival. Saudade daquele nervosismo enlouquecedor que eu ficava antes de sair resultado de premiação e do entusiasmo mais enlouquecedor ainda quando a gente ficava sabendo que o 1º lugar era nosso.
Saudade de acordar e pensar: hoje tem espetáculo. Saudade das aulas de barra à terre que me deixava dolorida por uma semana, do jazz, do sapateado. Saudade de passar as férias inteiras na Fama e das conversas intermináveis na recepção. Saudade das bolhas, dos machucados, dos cortes e das dores intermináveis (ok, disso eu não tenho saudade nenhuma). Saudade do único dia da minha vida que eu fiz os 32 fouettés (mal e tortamente, é verdade. Mas eu fiz. E chorei de alegria quando cheguei em casa) e de alguns dias que eu fiz pirueta tripla.
Saudade do 7º e do 8º ano com as insuportáveis aulas de Royal. Saudade de matar aula de Royal pra ficar na padaria conversando. Saudade de estudar na sala 5 porque teria prova no dia seguinte. Saudade das sextas que as aulas começavam as 15h e acabavam depois das 22h.
Saudade da formatura, de todos os preparativos e toda a correria. Saudade da cerimônia de formatura, quando eu chorei silenciosamente cada vitória minha pra estar lá naquele dia.
Saudade do dia que fiquei sabendo que eu seria uma das protagonistas de um ballet cômico. Mais saudade ainda do dia que eu fui pro palco com a tal personagem e ouvi a platéia gargalhar com o que eu fazia. Saudade daquela gente toda me elogiando. Saudade do palco e do linóleo escorregadio que tinha que passar álcool pra melhorar. Saudade da coxia, das trocas de roupa em velocidade relâmpago e de todos os ‘merda’ que eu já falei e ouvi na vida.
Saudade dos abraços, das orações, da energia.
Saudade da Betina, da Luiza, da Guga, da Mima, da Tita, da Pati, da Gabi, da Flavia, da Hare, da Bambini e da Giba.
A saudade que eu senti vendo as fotos e escrevendo esse texto só me prova que só se sente saudade do que é bom, do que nos fez bem, das pessoas que fizeram a diferença na nossa trajetória nesse mundo. Foram muitas lições aprendidas… muito além de lições de ballet, lições de vida. De perseverança, de amizade, de esforço e empenho pra atingir um objetivo mesmo que as condições não sejam favoráveis.
Queria estar com as pessoas que fazem parte disso. O mundo deu muitas voltas, cada um tomou o seu rumo, mas tem uma frase do Vinícius de Morais que diz que “mesmo que as pessoas mudem e suas vidas se reorganizem, os amigos devem ser amigos para sempre, mesmo que não tenham nada em comum, somente compartilhar as mesmas recordações”. E com essas pessoas eu compartilho MUITAS recordações. Daquelas que me matam de saudade em uma madrugada gelada ou em qualquer dia que eu pense nelas.